A MISÉRIA E A SECA
publicado em 20/02/2002

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL DE NOTICIAS (Montes Claros - Regional) PAG: 02

George Fernando Lucílio de Britto (*)

O maior dos grandes compositores e artistas nordestinos Luiz Gonzaga, já há tempos agradecia os sulistas pelo auxílio que davam para as secas do sertão. Contestou veementemente certos tipos de ajuda como numa estrofe da eterna Vozes da Seca: “mas doutô uma esmola a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Em outra estrofe, com muita sapiência técnica e estratégica para um artista que foi, indicou o caminho hoje defendido por muitos: “dê serviço (permanente) a nosso povo, encha os rios de barragem, dê comida a preço bão, não esqueça a açudagem”. Querendo demonstrar com estas palavras cantadas que a solução para as secas estava e sempre esteve na força de obras estruturantes que armazenam água do período chuvoso para utilização na época de escassez. E isto vale para toda região seca do país.

Com certeza não se deve admitir, nem a comunidade técnica e nem a sociedade de maneira geral, que a solução para as secas da região deva vir através de constantes medidas paliativas, das quais o Norte de Minas fica sempre refém, mesmo sabendo que tais medidas são conseguidas às custas de um grande comprometimento da classe política. A sociedade deve demonstrar sua indignação diante dos parcos recursos recebidos pela região e destinados a investimentos estruturantes e voltados para o desenvolvimento.

A grande maioria da população tem a consciência de que não são as cestas básicas que vão pôr fim à fome da população rural e nem tampouco as bolsas-renda que garantirão a oportunidade de ocupação da mão-de-obra de forma digna, durante todo o ano, sanando o problema da pobreza do país.

A pobreza atinge hoje no Brasil uma população de 53 milhões de pessoas ,sendo que cerca de 23 milhões estão no limite da linha da miséria. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, os miseráveis hoje correspondem à 14,5% da população do país. Considerando apenas a fatia rural deste contigente de miseráveis ,vê-se que 70% sobrevivem no Nordeste brasileiro. Coincidentemente, na região que menos chove no país; na região mais desprovida de infra-estrutura adequada ao desenvolvimento; na região onde a vida ainda é quase primitiva, chegando no limiar da indigência.

A pior seca do Nordeste reportada pela História foi a de 1877, quando 57 mil nordestinos tiveram a vida ceifada pela tragédia. No último século, a seca irrompeu 23 vezes e a mais devastadora e cruel ocorreu em 1983, deixando seu rastro de miséria aguda, epidemias, migrações em massa e desespero popular. Nessa região pode-se dizer que a realidade tem ultrapassado as fronteiras da ficção no que diz respeito à carência de água.

A região de maior ocorrência de seca no Nordeste, equivalente a três vezes a área do Estado de São Paulo e onde vivem cerca de 18 milhões de habitantes – 10 milhões na zona rural – é o semi-árido mais populoso do mundo. Os outros locais secos do planeta são habitados por populações rarefeitas, que se concentram em áreas onde existe água, como os oásis do deserto, ou onde existe estrutura que fornece alternativas de convivência com a seca permanente.

Nos últimos 20 anos, a população na área mais atingida pelas secas no Nordeste caiu pela metade, reduzindo assim, substancialmente, o número de flagelados em potencial. Reduziu-se, então significativamente, a crueldade deixada por essas catástrofes contínuas. Mesmo com tal força destruidora, a situação nordestina não se compara à Etiópia de 1984 - onde e quando 7 milhões de pessoas morreram em conseqüência da fome provocada pela seca e alimentada ainda pela guerra civil. O que se vê em comum nesses episódios, é que todos têm início por uma catástrofe da natureza e são agravados pela omissão humana.

A Organização Mundial de Saúde prevê que , em 25 anos, cinco milhões e quinhentas mil pessoas terão dificuldades de acesso à água. A água, um elemento abundante e tido como inesgotável até pouco tempo, será neste século XXI, segundo a Organização das Nações Unidas, o bem mais precioso do mundo.

Um bem cuja escassez também já é prevista e sua abundância ameaçada por vários fatores, como o crescimento demográfico, a urbanização desordenada, a poluição dos mananciais, o uso irracional, a distribuição desuniforme e, principalmente, o desperdício e o descaso para com a sua preservação.

Preservação que deve ser associada a outras ações de mesma importância, como estudos e obras para captação, armazenamento, distribuição e utilização, uma vez que, diante da experiência mostrada até então, o desenvolvimento do norte de Minas passa necessariamente pela agricultura irrigada e, por conseguinte, pela utilização racional dos recursos hídricos disponíveis e aqueles que vierem a ser disponibilizados.

Somente com medidas destinadas a fortalecer a infra-estrutura regional – principalmente com relação aos recursos hídricos que se apresentam como um fator limitante – é que se pode aqui esperar o desenvolvimento, através da geração de emprego e produção de excedentes exportáveis que afastarão um razoável contigente da população da linha de pobreza detectado nas pesquisas e passando a se assemelhar, mais uma vez com uma das estrofes de Vozes da Seca: “se o doutô fizer assim, salva o povo do sertão, quando um dia a chuva vim, que riqueza prá Nação!”.

(*) Presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos do Norte de Minas/AGRO-NM e Gerente Regional da Associação Brasileira de Água Subterrânea – ABAS.

GFLB/cns
C\Documento 2002\Christine\Miséria e a Seca




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