ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL DE NOTICIAS (Montes Claros/MG – Regional) PAG: 02
(*) George Fernando Lucílio de Britto
Mas não é apenas na busca do resultado econômico que o profissional da agronomia atua. Muitas vezes lhe são impostas incumbências no sentido de viabilizar sistemas de exploração agrícola considerados falidos por alguns e que são praticados pelo pequeno produtor rural que convive com as incertezas e as mais diferentes dificuldades: como por exemplo, mesmo com todo o aparato de tecnologia disponível e toda a assistência técnica que lhe é prestada, falta-lhe o recurso financeiro, falta-lhe a instrução – pois são na maioria analfabetos – falta-lhe qualidade no produto final, falta-lhe produção de escala para se manter no mercado, falta-lhe organização social e produtiva; falta também a água para aqueles que ficam à mercê das chuvas e sujeitos à inclemência do sol das secas. Entretanto, se em situações precárias como esta descrita, o profissional da agronomia consegue fazer com que haja uma exploração de substância, gerando ocupação para o produtor e sua família, podemos considerar este resultado como uma grande conquista ou uma vitória. Na atual realidade do país, em que a agricultura e a pecuária comerciais estão altamente profissionalizados, não é justo que conclusões preconceituosas discriminem aquele sistema quase falido do pequeno produtor. Não é preciso evocar teorias socialistas para provar que aquele sistema gera pouco resultado econômico, não gera emprego além dos familiares, não gera excedente exportável e quase nem contribui para o incremento do PIB; porém é um dos principais responsáveis para mentes o homem no campo, evitando o êxodo rural, reduzindo alguns dos grandes problemas sociais que se instalam na periferia dos centros urbanos; e mais ainda contribuindo para que a taxa de desemprego do país não avance tanto além dos atuais 17,3%.
E por falar em centros urbanos, é bom lembrar que em 1950, a população urbana do Brasil era de 36%, um país tipicamente rural por definição. Quarenta anos depois, em 1990, quase 75% da população já viviam nas cidades. Portador de um dos maiores recordes de desigualdade social do mundo e de uma das maiores taxas de urbanização, o Brasil chegou no ano de 2000 com apenas 18,8% de sua população morando na zona rural e convivendo com uma gama de deficiência em termos de infra-estrutura para o desenvolvimento. São precárias na zona rural de grande parte do país, incluindo o norte de minas, as condições de educação, saúde, energia, transporte e, principalmente, de abastecimento d’águas, cujas primeiras ações de reconhecimento e de estudos estão configurados na intitulada expedição da bacia do rio verde grande, realizada no período de 14 a 25 do mês de setembro.
A água tida até pouco tempo como recurso natural renovável e inesgotável e que a humanidade supunha ser infinito, vem a cada dia demonstrando sinais de esgotamento e se mostrando como um considerável fator limitante nas decisões de novos investimentos geradores de riqueza. De toda a água existente no planeta, apenas um pouco mais de 2% de seu volume estão disponíveis para utilização pela sociedade. O Brasil se apresenta como o país mais rico em água doce do mundo, detendo cerca de 12% das reservas mundiais. Entretanto, isto pode ser considerada uma falácia, uma vez que 70% dessa água estão na bacia amazônica onde vivem apenas 7% da população nacional. Daí nasce o desequilíbrio que deve ser ajustado na região com a efetivação da ANA. Desequilíbrio que fazem com que 1,0 bilhão de pessoas no mundo não tenham acesso à água tratada. Desequilíbrios que fazem com que a maioria dos países não disponha de recursos para aplicação na recuperação e preservação de bacia, enquanto que somente a Inglaterra investe anualmente US$ 9 bilhões apenas nessa área. Desequilíbrios que fazem com que dos 53 paises, 13 já sofram problemas sérios com a escassez de água. Desequilíbrios que levam a se prever que em 25 anos metade do povo africano não terá água sequer para o consumo humano.
São previsões como estas que nenhum de nós deseja que sejam concretizadas no norte de minas. E no auxílio para que isto não aconteça, a classe agronômica se posta ao lado das entidades de representação política, dos órgãos governamentais e da sociedade de maneira geral, na basta de investimentos estruturantes no que diz respeito à oferta de recursos hídricos para geração de empregos e alimento para a população.
A exemplo da escassez de água, da deficiência da infra-estrutura produtiva da região, da discriminada exploração de subsistência do pequeno produtor rural contracenando com os resultados promissores do complexo agroindustrial, poderíamos ainda aqui fazer considerações oportunas sobre assuntos bem atuais e nos quais a presença do profissional da agronomia parece indispensável. Como exemplo a questão da reforma agrária, cuja permissividade do governo federal deixa que o movimento dos sem terra transforme um assunto de extremo interesse nacional em baderna com propósitos políticos partidários. A questão da produção de alimentos transgênicos ou organismos geneticamente modificados. A questão da preservação ambiental no desenvolvimento sustentável. A questão da educação no desenvolvimento rural e não produção agropecuária. A questão dos agrotóxicos, sua utilização e o destino final de suas embalagens. A questão do racionamento da energia elétrica que incomoda a todos nós e que interfere diretamente no crescimento econômico do país. E são tantos os outros temas que poderiam ser aqui relacionados e que de certa forma têm a interferência direta ou indireta do engenheiro agrônomo.
A atual diretoria da AGRO-NM tem a intenção de reativar a entidade e de coloca-la participando das decisões voltadas para o desenvolvimento da região. Tem ainda a pretensão de resgatar o prestígio da classe e fortalecer o papel do engenheiro agrônomo, mostrando para a sociedade a sua importância e a relevância de sua atuação na melhoria da qualidade de vida do cidadão do norte de Minas Gerais.
Se analisarmos bem, veremos que, por ser tratar de uma profissão de formação miltidisciplinar como vimos no início, o profissional da agronomia tem uma interação constante com o meio ambiente e com toda a complexidade do ecossistema; com atividades produtivas e econômicas; com alimentação; tem interação com o ser humano, com a população e a sociedade de maneira geral: e isto o torna, sem nenhuma modéstia, um agentes de destaque na qualidade de vida da população, sem querer aqui desmerecer a importância de nenhuma outra profissão que atua para o bem estar da sociedade.
(*) Presidente da Associação do Engenheiros Agrônomos do Norte de Minas/
AGRO-NM e Gerente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas –
ABAS – Núcleo Norte de minas