O ENGENHEIRO AGRÔNOMO E O AGRONEGÓCIO
publicado em 31/10/2003

ARTIGO PUBLICADO NA GAZETA NORTE MINEIRA (Montes Claros/MG-Regional) PAG: 02

George Fernando Lucílio de Britto (*)

Dia 12 de outubro, a Classe Agronômica mais uma vez esteve em clima de comemoração. Não somente porque esta data é dedicada aos Engenheiros Agrônomos, mas também pelos reflexos do trabalho destes profissionais na sociedade e na economia do País.

Na última semana, o IBGE divulgou o documento “Estatísticas do Século XX”, mostrando que nos últimos cem anos o Brasil esteve entre os cinco países com maior crescimento do Produto Interno Bruto – PIB, ao lado de bilionários como Japão, Finlândia, Noruega e Coréia. O Brasil, em 1988, ocupava a oitava posição entre as nações mais ricas do mundo; passando para a décima-segunda colocação em 2002, após ter o valor de suas riquezas ultrapassado pelo Canadá, Espanha, México e Coréia do Sul. Até o final do ano, a economia nacional pode cair para o décimo-quinto lugar, caso se confirme o índice de crescimento econômico anunciado pelo governo, perdendo posições para a Holanda, Austrália e Índia.

Mesmo assim, sendo a décima-quinta economia mundial, parece ser um grande feito para uma país que vem enfrentando uma seqüência de graves crises econômicas e sociais, nos últimos tempos.

Dos 170 milhões de brasileiros, 53 milhões são considerados pobres; sendo que destes, 23 milhões sobrevivem no limite extremo da linha de miséria. Em temos de desemprego, o Brasil com mais de 13% da população economicamente ativa desempregada, somente é superado pela Índia onde existem 14 milhões e 500 mil trabalhadores em potencial, sem serviço.

No que diz respeito á distribuição de renda, o Brasil está próximo dos países com maior concentração de riqueza, como Serra Leoa, República Centro-Africana, Suazilândia e Namíbia.

Dos 173 países estudados para determinação do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, o Brasil ocupa a septuagésima-terceira posição, próximo da Arábia Súdita, Fiji, Suriname e Líbano, e muito distante da Noruega, da Suécia, do Canadá e da Bélgica, os quatro primeiros colocados.

Observando-se por outro lado, pode-se estar diante de um outro Brasil, contribuindo para a manutenção da estabilidade econômica e pela geração de riquezas que até o final desta no ainda mantém o País como a décima-segunda economia mundial, está o agronegócio. Ambiente de trabalho onde atua o Engenheiro Agrônomo, o setor tem apresentado desempenho nunca experimentado em nenhum outro momento da história brasileira. E este é também um dos grandes motivos para comemoração, uma vez que essa situação valoriza e coloca a Classe Agronômica em posição de evidência no cenário nacional.

No último dia seis, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, divulgou que as exportações do agronegócio , nos primeiros nove meses deste ano, totalizaram US$ 22,4 bilhões, 25% mais que no mesmo período do ano passado – um recorde histórico. Com as importações atingindo US$ 3,5 bilhões, o superávit acumulado foi de US$ 18,9 bilhões, mais de 29% acima do registrado entre janeiro e setembro de 2002 – este é mais um recorde brasileiro. Diante desse desempenho registrado, o saldo da balança comercial do agronegócio deve fechar o ano com o superávit de US$ 24 bilhões, sustentando os demais setores da economia que se mostram deficitários, no atual momento.

Estes dados são frutos de novos investimentos em tecnologia e busca do profissionalismo em todos os segmentos do setor, tanto naqueles localizados a montante quanto nos que estão a jusante da exploração agropecuária propriamente dita, fazendo com que a produção de grãos da última safra agrícola ultrapassasse a casa das 122 milhões de toneladas.

Isto fez o País se tornar o maior produtor e exportador de soja do planeta, depois de se ter consolidada a primeira posição na produção e exportação de suco de laranja, café e açúcar. Segundo relatório recente do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o Brasil é reconhecido como o País de maior potencial de crescimento no setor pecuário, quebrando tradições e ultrapassando os maiores exportadores de carne bovina do mundo, estando à frente da União Européia, dos Estados Unidos e da Austrália.

Mesmo diante de todos este bons resultados mostrados, a base produtiva do agronegócio que é a propriedade rural privada, vive em constante apreensão disseminada pelas desenfreadas incursões de movimentos sociais, em especial do movimento dos sem terra que, nos últimos meses, na região e em todo País, vêm afrontando as instituições formais e ignorando o direito constitucional de propriedade.

Sem medo de errar, pode-se afirmar que toda a Classe Agronômica é favorável à reforma agrária. Entretanto, o que se tem assistido nos últimos meses leva-se a crer que o MST não se interessa por essa reforma agrária da qual a grande maioria é favorável e de que o País precisa; mas sim pelo instrumento violento das invasões, como o qual pretende promover seus objetivos fundamentais que são a contestação da propriedade e o controle do poder. Esse quadro é tão explicito que não se fala em criar condições para que os assentados passem a ser produtores viáveis e prósperos. Pelo que se tem visto, a reforma agrária tem sido usada pelo MST como pretexto de contestação que, de forma direta, tem quebrado e violado a harmonia e a tranqüilidade do campo. Um campo que, ironicamente, emprega em seu contexto produtivo, mais de 37% de quem realmente quer trabalhar neste país.

Há de se confiar no compromisso histórico do Presidente Lula, que levar adiante a reforma agrária no Brasil como parte do processo de desenvolvimento e de inclusão social, respeitando os princípios da constituição e da lei, de forma pacífica e negociada, sem ferir o estado de direito.

Diferentemente disto, por mais que a maior parte da sociedade cumpra sua função no processo de desenvolvimento, dificilmente assistir-se-á o espetáculo de crescimento tão esperado pela população e apregoado enfaticamente por este atual governo.

Todos devem ter sua opinião e utilizá-la como contribuição neste processo de desenvolvimento. Enquanto profissional da classe, enquanto entidade representativa, enquanto órgão público e enquanto cidadão, acima de qualquer tendência partidária, deve-se repudiar as ingerências, o oportunismo, o autoritarismo, e principalmente, as omissões daqueles que detêm o poder.

Todos devem também, em sua autenticidade, compartilhar o sucesso alcançado pelo agronegócio com aqueles que demonstram ter opinião e que utilizam-se delas para participar efetivamente do desenvolvimento da região norte mineira.

(*) Presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos do Norte de Minas/
AGRO-NM e Gerente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas –
ABAS – Núcleo Norte de Minas




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